24 de março de 2014

DUAS BANDAS NO TITANIC

DUAS BANDAS NO TITANIC 
PARTE III
Em 10 de abril de 1912, o RMS Titanic partiu da cidade de Southampton, Inglaterra. Cada passageiro na Primeira e Segunda Classe recebeu um pequeno panfleto intitulado White Star Line Music. Comumente conhecido como White Star Line Songbook, ele listava os títulos e compositores de 341 partituras. Além destes, haviam categorias musicais como National Anthems, (Hinos Nacionais) e Strauss Waltzes (Valsas de Strauss). É desconhecido quantos títulos no panfleto os músicos tinham disponíveis para si. 
Entre os que embarcaram estavam os oito músicos que viajavam como passageiros da Segunda Classe, homens que carregavam caixas de instrumentos como sua bagagem. A banda foi especialmente seleccionada por uma agência chamada C. W. & F. N. Black. Alguns tinham experiência em outros navios, e outros colocavam os pés no convés do Titanic para sua primeira experiência no mar aberto. Passagem gratuita e alimentação eram parte da sua compensação, além de um pequeno salário mensal. Os seus verdadeiros ganhos viriam através de gorjetas.
Em 1912 era típico que músicos de hotel tocassem onde não pudessem ser vistos pelos seus ouvintes, até mesmo atrás de plantas (por isso existia o termo Músico de Palm Court). Mas este não era o caso do Titanic. Os pianos eram peças de destaque, em plena exposição em cada sala. A intenção era de que os músicos fossem ouvidos e vistos, a música era parte do luxo do navio. No entanto havia uma distância profissional entre a banda e os passageiros, que poderiam conhecer os músicos de vista, mas não por nome.
Kate Buss, uma passageira da Segunda Classe, relembrou um concerto que ela e um amigo ouviram nas escadas. Kate desenvolveu um carinho pelo celista da banda e queria pedir-lhe que tocasse um solo, mas ela ficou nervosa em falar com ele directamente. Ela escreveu: “O homem do celo era o meu favorito. Toda a vez que ele finalizava uma peça ele olhava para mim e sorria”. Outra passageira, Juliette Laroche, relembrou numa carta, “Escrevo na Sala de Leitura: há um concerto aqui, perto de mim, um violino, dois celos, um piano."
Helen Churchill Candee, uma passageira escritora americana que se hospedou na Primeira Classe, publicou em suas memórias sobre ter escutado a banda na Sala de Recepção: “... depois do jantar quando o café foi servido em todas as mesas ao longo da grande sala geral de descanso, foi por lá que a orquestra tocou. Alguns disseram que ela era má em Wagner, outros disseram que o violino era fraco. Mas isso era falatório, nada a bordo era mais popular que a orquestra. Poderia-se notar isso pela maneira com que todos se recusavam a sair. E todos pediam por algum êxito favorito. A menina mais bonita pediu música para dançar, marcando o passo com os seus saltos de cetim e balançando os seus braços adolescentes ao ritmo. Hugh Woolner pediu por Dvořák, enquanto ela pediu por Puccini, e ambos tiveram os seus gostos atendidos, porque a orquestra era hábil e disposta”.
No domingo, 14 de abril, havia várias coisas na mente dos passageiros: a súbita queda da temperatura, um concerto beneficente que seria prestado na segunda-feira, 15 de abril, em nome das crianças órfãs que perderam os seus pais no mar; mensagens telegráficas escritas e enviadas para parentes e amigos; e cantos de hinos e cultos que estavam sendo celebrados na Primeira e Segunda Classe. As 10:30 da manhã os passageiros da Primeira Classe assistiram a um culto religioso no seu Salão de Jantar. Pessoas de Segunda e Terceira Classes também foram convidadas a subir até ao grande salão para assistir ao serviço religioso. O Coronel Archibald Gracie relembrou ter cantado o hino "Oh God Our Help in Ages Past" e de ter sentido a força das palavras. 
Os passageiros passaram a tarde na sala de leitura e livraria, discutindo a velocidade do Titanic e de quando ele poderia aportar em New York, na quarta-feira de manhã, ou antes, na noite de terça-feira. 
Haviam rumores na Primeira Classe que Bruce Ismay, director administrativo da White Star Line, teria mostrado uma mensagem telegráfica que alertava para icebergs, e feito uma brincadeira dizendo que eles poderiam “... aumentar mais o vapor e fugir deles”.
Dependendo de onde os passageiros estivessem no domingo a noite, eles poderiam cantar hinos ou bebericar bebidas quentes enquanto escutavam a banda. Robert Norman, um engenheiro escocês, tocou piano para um hino informal no domingo à noite no Salão de Jantar da Segunda Classe. Lawrence Beesley relembrou os tons sussurrados com o qual a congregação cantou o hino “Eternal Father, Strong to Save”, que possui um verso que termina com a frase “... para aqueles em perigo no mar”.
A banda de cinco membros apresentou o seu concerto nocturno na Sala de Recepção da Primeira Classe do lado de fora do Salão de Jantar. O Coronel Gracie assistia com os seus amigos, onde escutou a “sempre agradável música” e apreciou o desfile de muitas mulheres bonitas que estavam vestidas em plenos trajes formais. A Condessa de Rothes notou que a última canção tocada foi uma peça de Offenback, “Os Contos de Hoffman".
No final da apresentação Helen Churchill Candee relembrou,“As pessoas dirigiram-se para as suas cabines, com um alegre ‘até manhã’, até que o grupo ficou sozinho, e os únicos sons que faziam eram aqueles dos instrumentos sendo depositados nos  seus leitos de veludo”.
O quinteto então se apresentou no saguão de entrada da Segunda Classe. Kate Buss fez o seu caminho até à apresentação depois de comparecer ao cântico do hino.“Naquela noite”, Kate relembrou, “o pianista perguntou-me se me importaria de recolher as contribuições, caso eu tivesse gostado da música.” Depois, “Eu vi o pianista quando me dirigia para a cama, e prometi-lhe.” (as contribuições eram então oferecidas aos músicos no último dia da viagem).
O Café Parisiense e o Restaurante à La Carte estavam sempre abertos. Mahala Douglas jantou no restaurante naquela noite de domingo, indo para lá por volta das 20:00 e ouvindo os músicos tocando no corredor externo. 
Violet Jessop, uma camareira da Primeira Classe, também ouviu a apresentação do trio ao passar pelo local. “Oh aquele domingo à noite! A música era a mais alegre, liderada pelo jovem Jock, o primeiro violinista; quando me dirigi a ele durante o intervalo para fumar ele sorrindo dirigiu-se a mim no seu sotaque escocês, dizendo que estava pronto para dar uma ‘canção de verdade, uma canção escocesa, para finalizar com chave de ouro”.
Na próxima semana iremos continuar com os depoimentos dos sobreviventes e de como se recordam dos músicos durante o naufrágio.

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